O Volume Alto na Ministração de Louvor

  04/03/2016     3,061 views     0



Louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar. Atos 2:47


O alto volume do som provoca efeitos negativos no ser humano, tanto mais, se for em excesso. Mesmo se esse som for uma música, os efeitos negativos poderão surgir. Ibañez, Schneider, Seligman, citados no livro do Ministério da Saúde (2001; p.28) advertem que os "hábitos exagerados com a música" causam efeitos nocivos auditivos e não-auditivos, tais hábitos incluem o volume e a quantidade de horas que uma pessoa se expõe para a audição de músicas. Infelizmente, esses hábitos exagerados com a música tem contagiado algumas igrejas, especialmente, hábitos referentes ao volume alto - tão alto, que às vezes torna-se ininteligível, dificultando ao ouvinte a plena comunhão na participação do culto. Sacks (2007; p.299) fala que a "música ininteligível" é "mero barulho". Então, de que valor terá essa ferramenta em nossas igrejas, se não for utilizada adequadamente, se não for inteligível? Sacks também fala que a música envolve uma série de inferências e até expectativas, quando é possível de entendê-la, assim sendo, teremos condições de cantar ou interagir com ela:


Ouvir música não é um processo passivo, e sim intensamente ativo, que envolve uma série de inferências, hipóteses, expectativas e antevisões (como analisaram David Huron e outros). Podemos entender uma nova música - como ela é construída, aonde está indo, o que virá em seguida - com tanta precisão que mesmo depois de apenas alguns compassos poderemos ser capazes de cantarolar ou cantar junto com ela. (2007; p.207)


Como "cantar junto", se a música for ininteligível? Sendo, o ato de "ouvir música" um processo intensamente ativo, "cantar música" também não é?


É possível que alguns irmãos já estejam adaptados ao volume alto da música e, dessa forma, não percebam a intensidade real da música durante a ministração. Isso pode acontecer porque o ouvido e o cérebro tem uma espécie de referência flutuante capaz de adaptar-se ao ambiente, se assim interpretar como normal um determinado som. Ou seja, é uma questão de adaptação auditiva . Essa pauta requereria, uma profunda reflexão. O Ministério da Saúde (2001); Seligman (2001); Saks (2007), dentre outros, mencionam que a exposição ao ruído, ao volume alto da música induzem vários efeitos negativos à saúde humana, relacionados direta e indiretamente à audição, como por exemplo, fadiga; sensação de formigamento, zumbido, perda auditiva induzida, dor, tontura, alterações na frequência cardíaca, alterações no sistema respiratório e digestivo, zumbido, impotência sexual, problemas no feto das mulheres grávidas, desânimo, alucinação musical, musicofilia, diminuição do raciocínio, perda da inteligibilidade das palavras, algiacusia, transtornos da comunicação, dificuldades no entendimento da fala, alterações do sono, etc.


A efeito, isso também pode contribuir para o afastamento dos irmãos e visitantes mais sensíveis ao som e ou esclarecidos, quanto a esta temática, para outras igrejas. Como também, estimular a outros saírem do culto antes da oração final e, assim, diminuir ou excluir a probabilidade de adoração e entrega a Deus desses irmãos. A Igreja não está livre dos efeitos negativos que o som ou a música, em volume excessivamente alto, pode causar. O fato de ser uma Igreja, não a exclui dos possíveis males; o fato de cantar ou tocar a música gospel, também não. Pesquisas como a publicada na revista, New Scientist, apontam efeitos negativos que o barulho pode causar. Em 2007 ela divulgou que em média 210.000 pessoas morreram, anualmente, por ataques cardíacos provocados pelo excesso de barulho que se expuseram ou que foram expostos. Na pesquisa é destacado uma lista de males, desde problemas cardiovasculares à surdez, desde irritabilidade ao stress. Além, de relacionar alguns efeitos negativos, seria possível também, mencionar e embasar muitas razões para despertar nos ministros do louvor e do som a refletirem mais cautelosamente sobre este assunto. Mas, citarei apenas duas - a referente a musicopilepsia e, a referente à inclusão social. Oliver Saks (2007), neurologista e escritor best-seller relata sobre a Epilepsia Musicogênica ou Musicopilepsia - que corresponde a ataques epilépticos induzidos por música, o exemplo citado abaixo está relacionado à intensidade e à excessiva exposição da música. Cita o exemplo de uma pessoa por nome de G. G. dizendo que:


Mas ele sofre particularmente em um ambiente barulhento e permeado de música, tanto que precisa usar protetores auriculares durante a maior parte do tempo. Seus ataques começam ou são precedidos por um estado especial de atenção ou audição intensa, involuntária, quase forçada. Nesse estado já alterado, a música parece ganhar intensidade, avultar, apossar-se dele. Nessa etapa ele não pode deter o processo, não consegue desligar a música nem se afastar dela. A partir desse ponto não retém a consciência nem a memória, embora sobrevenham vários automatismos e comportamentos automáticos epilépticos, como arquejar e estalar os lábios. (2007; p. 37).


Seria lamentável induzir um ataque musicopiléptico durante a ministração do louvor e, igualmente lamentável, seria confundir tal ataque musicopiléptico com uma possessão demoníaca. Não seria saudável esse tipo de confusão na hora do culto. Mas, estamos instruídos e ou preparados para receber uma pessoa com musicopilepsia em nossas igrejas? Como lidar com uma situação dessa natureza? Durante uma ministração de louvor induzir um ataque musicopiléptico, decorrente de uma música com uma intensidade exagerada, é racional? É preciso atentarmos para os prejuízos e malefícios que a música pode provocar, se utilizada em uma dosagem exagerada. A Bíblia recomenda o culto racional (Rm 12:1), também afirma que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus (Rom 10:17). É preciso racionalidade diante desse dilema desafiador. Saber dosar, equilibrar e ponderar quando se tem a responsabilidade direta em suas mãos: é preciso ter habilidade, racionalidade, discernimento, treinamento mais intenso e focado no som e seus parâmetros, pulso firme, conhecimento e sabedoria, assim a ministração e as pessoas poderão ouvir e participar dos cultos sem nenhum prejuízo.


Acrescento ainda, que as ministrações do louvor e do som devam ter um foco inclusivo e, sempre manterem-se pautados no amor ágape, conforme a Bíblia ensina em João (13:34), "Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que vos amardes uns aos outros". É preciso alcançar a todos, igualmente - bebês, idosos, pessoas com sensibilidade auditiva, etc. Vale ressaltar que, infelizmente, a maioria das igrejas não têm berçários, assim, os pais participam do culto com seus bebês no colo. Como fica o caso dos idosos que por natureza já perdem parcialmente sua audição à proporção que envelhecem? E, o caso dos autistas nesse contexto? Especialmente, os autistas que têm baixa tolerância a sons em frequências mais elevadas?


Além de efeitos negativos envolvendo aspectos físicos e psicológicos, a música com o volume excessivamente exagerado pode também induzir efeitos negativos nos aspectos espirituais e sociais. Romanos (13:10) informa que o amor não faz mal ao seu próximo; Gálatas (5:22) adverte, "Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança" - temperança significa ter moderação, equilíbrio e parcimônia em suas atitudes. Amor para com o próximo, quem ama protege, cuida, se preocupa em não machucar/ferir. O ministro do louvor e o ministro do som precisam lembrar a todo instante que cada irmão ou visitante são importantes e preciosos para Deus e necessitam louvar e adorar à Deus, sem perder de vista, a inclusão de todos, saudavelmente, de forma holística - mente, corpo e espírito. Meditemos, "Regozijai-vos no Senhor, vós justos, pois aos retos fica bem o louvor. Louvai ao Senhor com harpa, cantai-lhe louvores com saltério de dez cordas. Cantai-lhe um cântico novo; tocai bem e com júbilo", Salmos (33:1-3).


Sugestões aos Ministros de Louvor e Ministros de Som...


- Seria plausível um estudo de mapeamento da igreja para definir onde caixas de som e outros equipamentos sonoros possam ser bem distribuídos na nave do templo; definir os locais onde o som será mais e menos intensamente percebido, afim de comportar melhor os irmãos e visitantes de acordo com as suas limitações e necessidades. - Expor o mapa sonoro nos murais e entrada da igreja, tendo uma recepcionista, seria ideal orientá-la nesse sentido. - Ter habilidades para regular o volume do som, observando as características sonoras de cada irmão que utiliza o som. Como por exemplo, alguns irmãos que tem o hábito de cantar ou falar gritando, ou vice-versa. - Distribuir o tempo para a ministração - entre fala e louvor com mais equilíbrio e sabedoria, dosando sempre na intensidade.


Que a Escritura Sagrada nos inspire para ensinar, redarguir, corrigir, instruir em justiça; para que possamos ser perfeitos no ministério que nos for proposto. "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra". 2 Timóteo 3:16,17


BIBLIOGRAFIA

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-IV-TR ? manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 4ª ed.. Porto Alegre: Artmed, 2002. Bíblia Online. Disponível: https://www.bibliaonline.com.br/. Acesso: 17.02.2016


BRUSCIANELLI, C. Acústica, Psicoacústica y Electroacústica. 1995


MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, 2001. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_perda_auditiva.pdf. Acesso: 17.02.2016


PAPALÉO NETTO, M. Gerontologia. São Paulo: Atheneu, 2002.


SACKS, O. Alucinações Musicais: Relatos sobre a Música e o Cérebro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.



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